quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Nosso “highlander” José Alencar

por Celso Marcondes, da Carta Capital

O vice-presidente da República e sua luta pela vida, às vésperas do final de seu mandato

Em treze anos, dezessete cirurgias, a caminho dos seus 80 anos. Não sei de ninguém com essa marca do vice-presidente José Alencar, nosso “highlander”, o guerreiro imortal, como o denominaram vários de nossos leitores. Pode-se objetar: se fosse pobre já teria ido embora há muito tempo. Só que isso não importa, ele virou quase uma lenda, inclusive para os que padecem nas filas do SUS. Símbolo de luta pela vida, um brasileiro que não desiste nunca. Respeitado por governistas e opositores, mas, sobretudo, pelo povo, já virou adjetivo.

Neste final de 2010, acompanhar sua nova batalha é motivação para ficar de olho no noticiário pouco atraente da época. A pergunta que todos fazem é a mesma: estará ele na posse da nova presidenta? A resposta é óbvia, estará sim, de alguma forma, estará, com seu sorriso e prosas simpáticos, a reclamar dos juros altos. Estará ao lado de Lula, o operário e o empresário, de braços dados, a subir (ou descer?) a rampa do palácio, a se despedir de oito anos no comando do País, marcados pelas melhoras na parte lá de baixo da nossa pirâmide social, sem derrubar os poucos lá de cima.

Hoje está muito difícil sua nova batalha. A cada dia, novos boletins médicos falam de idas e vindas no seu estado de saúde, o corpo branco e calvo invadido por sondas, agulhas e bisturis. Visitas ilustres, poucas, acontecem e na saída do hospital dão conta das suas esperanças aos repórteres de plantão por 24 horas, com suas matérias já prontas para a eventualidade de um falecimento.

Todos sabem a gravidade da situação, embora imaginem que ele pode superar mais essa. Não seria surpresa para ninguém e sim motivo para nova celebração, um champanhe a mais a espocar dia primeiro.

Em período feito para retrospectivas, relembro quando seu nome foi definido para acompanhar o operário na chapa para as eleições de 2002. O objetivo claro, não atingido em anos anteriores, era ilustrar a possibilidade de um governo sem conflito entre lados teoricamente opostos. Ao perseguir esta meta, o PT foi dar em Minas, com este exemplo de “self made man”, daqueles raros que construíram sua fortuna sem contar com berço de ouro.

Seu nome foi recebido com satisfação por uns, com desconfiança por outros. Seu partido, com benevolência, podia ser definido como de centro-direita, sem nenhuma afinidade prévia com o dos Trabalhadores. Daria certo este acordo ou Lula se veria às voltas com um vice a aporrinhá-lo, daqueles prontos para se confrontar com o titular ou a causar desconforto a cada passagem de cargo temporária em função de viagem ou fatos imprevistos? E se Lula adoecesse – ou morresse – como ficaríamos? Um empresário assumiria o lugar do operário? Afinal, ainda estava na memória a troca de Tancredo por Sarney.

Veio uma crise em 2005, daquelas bravas. Daquelas onde um reserva sem escrúpulos poderia saltar para os microfones a se postular como substituto palatável. E menos traumático. Alencar não fez isso, manteve sua fidelidade, seu acordo fechado no “fio do bigode”, como faziam os mineiros das antigas.

E por oito longos (ou breves?) anos esteve lá no poder, lado a lado com o presidente, na alegria e na tristeza. Agora, termina o mandato com ele e, como ele, deixará saudades entre a maioria dos brasileiros, como vice algum deixou. Nunca antes na história deste País.


Celso Marcondes é jornalista, editor do site e diretor de Planejamento de CartaCapital. celso@cartacapital.com.br

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